O desenho dos processos licitatórios no Brasil determina quem consegue participar do mercado de compras públicas e quem permanece excluído. Compras públicas representam 15,5% do PIB brasileiro, mas dos 16 milhões de MEIs em operação no país, apenas 0,4% estão cadastrados como fornecedores do governo. O problema raramente está na lei: está no desenho do processo. É esse o tema que o Workshop “Compras Públicas: Um Mercado Desenhado”, promovido pela Comunidade de Ciências Comportamentais do Sebrae, colocou em debate.
NESTE ARTIGO
O Brasil é um dos maiores mercados de compras públicas do mundo. Em termos proporcionais, o volume movimentado anualmente supera a média da OCDE e equivale a uma parcela expressiva da economia nacional.
15,5% do PIB brasileiro é movimentado em compras públicas, um mercado com enorme potencial de impacto sobre o desenvolvimento local, a geração de renda e a inclusão produtiva de pequenos fornecedores.
Apesar desse volume, grande parte desse mercado permanece inacessível para quem mais poderia se beneficiar dele. O dado que traduz esse paradoxo com precisão: dos
16 milhões de MEIs em operação no Brasil, apenas 0,4% estavam cadastrados na base de fornecedores do governo (Dados SICAF, 2024). Ao mesmo tempo, as contratações de alimentos via agricultura familiar representam apenas 5% do total, muito abaixo do mínimo de 30% exigido pela Lei nº 14.628/2023.
A pergunta que o workshop buscou responder é direta: por que esse abismo existe? E a resposta, como ficou evidente ao longo do encontro, raramente está na lei. Está no desenho do processo.
O workshop “Compras Públicas: Um Mercado Desenhado” foi o segundo encontro da Comunidade de Ciências Comportamentais, iniciativa nascida da Maratona de Ciências Comportamentais em Políticas Públicas para Empreendedorismo do Sebrae em parceria com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI). Criada em 2025, a comunidade conecta três campos estratégicos: ciências comportamentais, políticas públicas e empreendedorismo, com o objetivo de transformar políticas com base em evidências.
A premissa central do encontro foi desafiadora e precisa: compras públicas não são apenas processos jurídico-administrativos. São arquiteturas de escolha que, conforme seu desenho, influenciam decisões de participação, quem desiste no meio do caminho e quem permanece excluído sem que ninguém tenha tomado essa decisão conscientemente.
Esse olhar muda tudo. Se o processo é uma arquitetura, ele pode ser redesenhado. E redesenhá-lo é, em si, fazer política pública.
“O desenho do processo determina quem participa e quem fica de fora. Quando o processo é complexo demais, ele não exclui por acaso: toda etapa envia um sinal, de confiança ou de barreira. Redesenhar esses processos é, em si, fazer política pública.”
Bárbara Sabadin Bueno, especialista em compras públicas e inovação governamental
A fala sintetiza o ponto central debatido: a neutralidade do processo é uma ilusão. Cada etapa de uma licitação comunica algo, esse sinal pode tanto abrir portas quanto erguer barreiras invisíveis.
Para estruturar a análise, o workshop adotou uma metodologia baseada em cinco dimensões comportamentais. Cada lente ilumina um ponto diferente do mesmo problema: como processos bem-intencionados podem, por seu design, concentrar mercados e afastar pequenos fornecedores.
| Lente | Pergunta central | O que revela |
| Acesso | Quem consegue entrar? | Barreiras visíveis e invisíveis que concentram o mercado nos mesmos players. |
| Fricção | Onde as pessoas travam ou desistem? | Etapas com alta carga cognitiva e custo de oportunidade, linguagem técnica e prazos que afastam pequenos fornecedores. |
| Confiança | Quais sinais o processo emite? | Se o processo comunica abertura ou barreira para governo e fornecedores. |
| Risco | O que é risco jurídico real e o que é medo institucional? | A diferença entre o que a lei proíbe e o que o gestor evita por excesso de cautela. |
| Retorno | O sistema ensina quem participa? | Falta de feedback reforça comportamentos repetidos ou conservadores. |
Uma das conclusões mais relevantes dessa análise: o entrave não é neutro. Ele define quem permanece. Um processo com excesso de etapas documentais, linguagem técnica inacessível e prazos imprevisíveis não se exclui por acidente e sim por design. E isso pode ser mudado.
O workshop utilizou como estudo de caso o desenvolvimento do Contrata + Brasil, plataforma do governo federal criada para simplificar compras públicas recorrentes e ampliar o acesso de MEIs e agricultores familiares ao mercado público.
O caso foi escolhido por uma razão estratégica: ele demonstra, na prática, que inovação e segurança jurídica não são opostos. Ao redesenhar o processo, a plataforma obteve resultados concretos:
→ Redução dos custos de transação para fornecedores e compradores públicos
→ Descentralização do mercado, abrindo espaço para fornecedores locais
→ Condições para que fornecedores até então invisíveis ao Estado pudessem participar
→ Lançamento do módulo de serviços em fevereiro de 2025 e do módulo de alimentos na COP30 em novembro de 2025
→ Avanço no cumprimento da Lei nº 14.628/2023, que exige mínimo de 30% de aquisições de alimentos via agricultura familiar
Um aprendizado que atravessa toda a experiência do Contrata + Brasil: ter uma visão de produto clara e voltar a ela sempre que o caminho se desvia é indispensável para inovar dentro da administração pública. Conversar com mercados e governos, registrar inovações e erros, e ser honesto sobre os riscos envolvidos esses foram os elementos que permitiram avançar.
O formato do encontro foi desenhado para privilegiar a construção coletiva de conhecimento, não a exposição teórica. A estrutura seguiu três momentos:
→ Conversa guiada com especialista para contextualizar o problema a partir de experiência real
→ Apresentação das cinco lentes comportamentais como ferramenta de análise aplicada
→ Trabalho prático em grupos com proposta de melhorias concretas
Os grupos foram orientados a estruturar suas propostas a partir de um raciocínio simples e poderoso:
“Se mudarmos X, esperamos mudança comportamental Y (maior adesão), porque reduz Z (fricção/risco percebido), mantendo controles essenciais.“
Esse exercício reforçou uma distinção essencial: simplificar não é fragilizar o controle. É qualificar o acesso. E essa distinção, muitas vezes, não está clara para gestores públicos, o que gera um ciclo de paralisia por excesso de cautela.
Ao longo do workshop, padrões recorrentes emergiram com clareza e vão além das compras públicas. São dinâmicas que atravessam qualquer política pública que envolva processos complexos e múltiplos atores:
→ Excesso de controle pode gerar exclusão tanto quanto a ausência dele
→ Medo institucional é um fator decisivo nas decisões de gestores públicos e frequentemente não corresponde a risco jurídico real
→ Muitas barreiras são culturais, não legais e podem ser removidas sem alterar a legislação
→ Pequenas mudanças no desenho de processos produzem grandes impactos no comportamento dos atores envolvidos
→ Sem feedback estruturado, o mercado não aprende — e os mesmos problemas se repetem
→ Olhar para processos e resultados pode ser mais eficiente do que focar em documentos
A conclusão central do encontro foi direta: simplificar é uma decisão política. E compras públicas são, antes de tudo, uma ferramenta de desenvolvimento não apenas de aquisição.
As ideias construídas coletivamente no workshop sintetizam um novo olhar sobre compras públicas: