Transformação econômica: por que é preciso regenerar territórios

11 min. de leitura 15.04.2026
Transformação econômica: por que é preciso regenerar territórios

Nos últimos anos, cresceu o número de empresas, investidores e lideranças que passaram a questionar os limites de um modelo econômico orientado apenas por eficiência financeira e crescimento de curto prazo. A pauta do impacto passou a fazer parte de decisões estratégicas, discursos institucionais e novas formas de atuação empresarial.

O UN Global Compact – Accenture CEO Study 2025, realizado com cerca de 2 mil CEOs de 128 países, mostra a dimensão desse movimento: 88% dos entrevistados afirmam que o business case da sustentabilidade está mais forte hoje do que há cinco anos.

Ainda assim, permanece uma pergunta importante: se já avançamos tanto na intenção de transformar negócios, por que a mudança estrutural da economia ainda parece lenta?

A resposta pode estar no próprio desenho do sistema. Transformar empresas é fundamental, mas não basta quando os territórios, as cadeias de valor, os mecanismos de governança e os indicadores de sucesso continuam operando sob a lógica da extração. É nesse ponto que a discussão sobre transformação econômica ganha uma camada mais profunda.

Em vez de pensar apenas na empresa de impacto, passa a fazer sentido olhar para o ecossistema de impacto. Em vez de focar exclusivamente na performance de organizações isoladas, surge a necessidade de fortalecer relações econômicas capazes de regenerar territórios, ampliar confiança entre atores e produzir valor compartilhado.

Foi a partir dessa perspectiva que conversamos com Pedro Tarak, cofundador do Sistema B e uma das principais referências latino-americanas na construção de modelos econômicos orientados ao bem comum. Sua leitura ajuda a ampliar a conversa sobre o que precisa mudar para que a nova economia ganhe escala, densidade e conexão com os territórios.

A transformação econômica exige sair da lógica da empresa isolada

Durante muito tempo, boa parte do debate sobre negócios de impacto esteve centrada na figura da empresa: seu propósito, sua governança, suas métricas e sua capacidade de equilibrar resultado financeiro com geração de valor socioambiental.

Esse movimento foi e continua sendo decisivo. Ele ajudou a ampliar repertório, influenciou lideranças e contribuiu para consolidar uma nova visão sobre o papel das organizações na sociedade.

Mas a prática mostrou um limite importante. Mesmo quando uma empresa avança, ela continua inserida em cadeias, territórios e sistemas de relação que podem bloquear ou enfraquecer seu potencial transformador.

Uma organização pode operar com propósito, mas depende de fornecedores, regulações, infraestrutura, indicadores econômicos e dinâmicas locais que nem sempre acompanham essa mesma direção.

Por isso, a transformação econômica passa a exigir uma mudança de escala. Não basta perguntar como uma empresa pode gerar impacto. Também é preciso perguntar como um território pode reorganizar sua economia para produzir bem-estar, regeneração ambiental, coesão social e competitividade sustentável.

Esse deslocamento é relevante porque muda a natureza do problema e também da solução. Sai de cena a ideia de que inovação acontece apenas dentro da empresa e entra uma visão mais sistêmica, em que governos, investidores, academia, organizações da sociedade civil e lideranças locais precisam atuar de forma articulada.

Mudança de visão: da empresa de impacto ao ecossistema de impacto

Pedro Tarak tem defendido justamente essa evolução. Cofundador do Sistema B, iniciativa global que incentiva modelos de negócios orientados por impacto positivo, ele ajudou a impulsionar uma agenda que transformou a forma como muitas empresas entendem seu papel no mundo. Agora, seu olhar se volta para um desafio mais abrangente: como criar ambientes econômicos inteiros comprometidos com o bem comum.

Essa passagem da empresa de impacto para o ecossistema de impacto é uma das chaves para compreender o momento atual da nova economia. Ela reconhece que impacto não depende apenas de boas intenções organizacionais, mas da qualidade das conexões entre diferentes atores e da capacidade de construir regras, incentivos e estruturas compatíveis com uma visão regenerativa de desenvolvimento.

Na prática, isso significa ampliar o foco. Em vez de olhar apenas para uma organização, é preciso considerar a cidade, a região, a biorregião, a cadeia produtiva e os arranjos institucionais que sustentam a atividade econômica.

Esse olhar territorial ajuda a enfrentar uma questão primordial do nosso tempo: como promover desenvolvimento sem repetir padrões que concentram riqueza, degradam ecossistemas e aprofundam desigualdades?

Regenerar territórios é uma agenda econômica, não só ambiental

Quando se fala em regeneração, muitas pessoas pensam imediatamente em preservação ambiental. Embora essa dimensão seja indispensável, o conceito é mais amplo.

Regenerar um território significa fortalecer as condições para que a vida econômica, social, cultural e ecológica se sustente de forma integrada ao longo do tempo. Significa criar relações de troca que não esgotem recursos, não fragilizem comunidades e não produzam prosperidade para poucos às custas de muitos.

Sob essa perspectiva, a transformação econômica não se resume a reduzir danos. Ela propõe criar novas capacidades coletivas. Isso inclui repensar modelos de produção, consumo, investimento, compras públicas, governança e mensuração de valor.

Também implica reconhecer que os territórios não são apenas cenários onde a economia acontece. Eles são agentes vivos desse processo. Carregam vocações, saberes, ativos naturais, redes de confiança, desafios históricos e potências locais que precisam ser considerados em qualquer estratégia séria de desenvolvimento.

Essa discussão é especialmente importante no Brasil. O país reúne biodiversidade, diversidade cultural, capacidade empreendedora e urgências sociais que escancaram a necessidade de modelos econômicos mais conectados à realidade dos territórios.

Confiança é a base da nova economia

Entre os pontos mais potentes dessa visão está a ideia de que confiança não é um elemento acessório. Ela é infraestrutura econômica.

Quando empresas, governos, investidores e organizações atuam com interesses pouco alinhados e baixa capacidade de cooperação, a confiança se torna indispensável para viabilizar ações coletivas consistentes. Sem ela, qualquer tentativa de articulação territorial tende a se fragmentar. Com ela, torna-se possível desenhar pactos, alinhar interesses e sustentar estratégias de longo prazo.

Esse ponto é especialmente relevante em um momento em que o debate econômico ainda costuma privilegiar indicadores quantitativos e resultados imediatos, deixando em segundo plano os vínculos que tornam a cooperação viável.

Ao recolocar a confiança no centro, Pedro Tarak resgata uma dimensão essencial do comércio e das trocas econômicas: sua capacidade de criar interdependência positiva. Não se trata de romantizar o mercado, mas de reconhecer que relações econômicas também podem ser desenhadas para promover paz, reciprocidade e regeneração.

Essa mudança de perspectiva ajuda a entender por que a transformação econômica precisa ser relacional. Além de inovar em produtos ou processos, é preciso inovar na forma como os atores se conectam, decidem, investem e compartilham valor.

Quando a teoria ganha forma prática

Essa visão já vem sendo testada em iniciativas concretas. Um dos exemplos apresentados por Tarak é a RITA, sigla para Regional Impact Trade Alliance, iniciativa voltada à articulação de territórios a partir de uma lógica econômica orientada ao bem comum.

A ideia é que regiões, cidades, províncias, biorregiões ou nações pequenas possam se organizar de forma multistakeholder, reunindo diferentes setores em torno de objetivos comuns. Isso pode envolver desde políticas de compras públicas que favoreçam negócios comprometidos com impacto até abordagens mais integradas para medir prosperidade nos territórios, como a proposta pelo INDEI (Índice de Ecossistemas de Impacto).

O valor dessa abordagem está justamente em sua capacidade de conectar visão sistêmica com implementação prática. Ela mostra que a transformação econômica não depende apenas de conceitos inspiradores, mas de desenho institucional, governança compartilhada e mecanismos de coordenação.

Também mostra que territórios podem se relacionar entre si a partir de propósito comum. Em vez de uma competição entre localidades, abre-se espaço para cooperação entre lugares que compartilham o interesse em regenerar suas bases econômicas e ecológicas.

Qual o papel de lideranças e organizações nessa agenda?

Como a próxima etapa da nova economia envolve os territórios, isso muda também o papel das lideranças. Além de dominar uma agenda técnica e defender publicamente o impacto, é preciso saber articular interesses diversos, operar em rede e construir valor em ambientes complexos.

Para empresas, isso significa ampliar a compreensão sobre o próprio negócio. A pergunta muda de “qual impacto geramos?” para “como contribuímos para a vitalidade do território em que atuamos?”.

Para institutos, fundações, investidores e organizações intermediárias, cresce a relevância de estratégias que fortaleçam capacidades coletivas, apoiem governança local e acelerem conexões entre atores que ainda operam de forma dispersa.

Para governos, a agenda aponta a necessidade de rever incentivos, critérios de contratação, métricas de sucesso e instrumentos de política pública capazes de favorecer ecossistemas econômicos mais conectados às realidades dos territórios.

Em todos os casos, falar em transformação econômica significa enfrentar um desafio de implementação. Isso exige método, alianças e ambientes de troca mais qualificados para amadurecer caminhos possíveis.

Por que essa conversa importa no Impacta Mais

Já que o campo do impacto precisa avançar da intenção para a implementação, o fórum Impacta Mais se apresenta como um espaço de convergência entre quem formula, quem executa, quem investe e quem influencia os rumos dessa agenda no Brasil.

Em sua sexta edição, o evento é o principal ponto de encontro do ecossistema brasileiro de investimentos e negócios de impacto, com expectativa de reunir mais de 3 mil participantes e uma programação distribuída em hubs temáticos, palcos simultâneos, feira de negócios de impacto, rodadas de conexão, prêmio e ambientes de experimentação.

A presença de Pedro Tarak na programação reforça esse papel. Sua participação amplia o debate sobre como sair de uma lógica centrada apenas em organizações exemplares e avançar para modelos territoriais de desenvolvimento regenerativo, com governança compartilhada e capacidade real de transformação.

Para quem atua com negócios de impacto, investimento, desenvolvimento territorial, inovação pública, filantropia estratégica ou articulação ecossistêmica, essa é uma oportunidade relevante de acessar repertório, trocar experiências e aprofundar uma agenda que tende a ganhar ainda mais centralidade nos próximos anos.

Afinal, discutir transformação econômica hoje é discutir como o Brasil pode construir modelos de prosperidade mais conectados ao território, mais consistentes do ponto de vista socioambiental e mais preparados para responder aos desafios do presente.

O futuro da economia requer territórios vivos

A nova economia amadureceu. E, com esse amadurecimento, ficou mais claro que o desafio não está apenas em formar empresas melhores, mas em criar condições para que territórios inteiros possam prosperar de forma regenerativa.

Esse é um passo exigente, porque envolve coordenação entre setores, revisão de indicadores, fortalecimento de confiança e disposição para experimentar novos arranjos. Mas também é um passo promissor, porque reconhece que transformação econômica de verdade depende de relações mais inteligentes, mais cooperativas e mais enraizadas na vida concreta das pessoas e dos lugares.

Se queremos uma economia capaz de sustentar o futuro, precisamos olhar para os territórios não como pano de fundo, mas como protagonistas da mudança.

E essa é uma conversa que já começou. Quer aprofundá-la com quem está ajudando a redesenhar os caminhos da economia de impacto no Brasil? O Impacta Mais 2026 acontece nos dias 20 e 21 de maio, no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo. Dois dias de conteúdo, conexões e ação. Para conferir a programação e garantir seu ingresso, acesse o site oficial do evento: impactamais.com.

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